segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Che guevara... O caraaaaa...

Esses dias, passou diarios de motocicleta aqui na TV portuguesa.. O bom daqui, é que praticamente todos os filmes são só legendados, porque ver a dublagem em portugues-PT é Brabo!

Enfim, depois de chorar novamente com o filme, sai pela internet a cata de mais informações a respeito do proprio livro escrito pelo Che, e ver se tinha alguma possibilidade de consegui-lo online.. busca não bem sucedida, pois só encontrei um trecho, mais precisamente o prefácio do livro, que foi escrito quando ele já retornou da viagem... Me senti um pouco próxima do texto, já que esse blog teoricamente retrata as minhas aventuras aqui por Portugal, e também me senti completamente Buuuuuuuurra, pois o cara escreve pra caralhoooooooo.. afs...
Em todo caso, reconheco minha incapacidade de escrever como tal, dividindo o texto aqui com vocês, pois ele escreveu da melhor maneira possivel as mudanças que acontecem conosco quando viajamos, entramos em contato com outra cultura, outras concepções de mundo... e claro, mantendo os devidos direitos autorais:

"De Moto pela América do Sul – Diário de Viagem"
Trecho 1 - Prefácio

"Esclarecendo as Coisas...

Este não é um conto de aventuras nem tampouco alguma espécie de “relato cínico”; pelo menos, não foi escrito para ser assim. É apenas um pedaço de duas vidas que correram paralelas por algum tempo, com aspirações em comum e com sonhos parecidos. Durante o transcorrer de nove meses, um homem pode pensar em muitas coisas, desde o mais alto conceito filosófico até o desejo mais abjeto por um prato de sopa – tudo de acordo com o estado de seu estômago. E se, ao mesmo tempo, esse homem for do tipo aventureiro, ele poderá viver experiências que talvez interessem às demais pessoas e seu relato casual se parecerá com este diário.

Assim, a moeda foi lançada e girou no ar; às vezes apareciam caras, às vezes coroas. O homem, que é a medida de todas as coisas, fala através de mim e reconta por minhas palavras o que meus olhos viram. De dez caras possíveis, eu talvez só tenha visto uma única coroa, ou vice-versa: não há desculpa; minha boca fala o que meus olhos lhe disseram para falar. Teria nossa visão sido estreita demais, preconceituosa demais ou apressada demais? Teriam nossas conclusões sido muito rígidas? Talvez, mas é assim que a máquina de escrever interpreta os impulsos desbaratados que me fizeram pressionar as teclas, e esses impulsos fugazes já estão mortos. Além disso, ninguém pode responder por eles.A pessoa que tomou estas notas morreu no dia em que pisou novamente o solo argentino. A pessoa que está agora reorganizando e polindo estas mesmas notas, eu, não sou mais eu, pelo menos não sou o mesmo que era antes. Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula América me transformou mais do que me dei conta.

Qualquer manual de técnicas de fotografia pode mostrar uma paisagem noturna com a lua brilhando no céu e um teto ao lado que revele os segredos dessa escuridão iluminada, Mas o leitor deste livro não sabe que espécie de fluido sensitivo recobre minha retina, eu próprio não o sei com certeza, então não é possível examinar os negativos para encontrar o exato momento em que minhas fotos foram tiradas. Se eu mostrar uma foto noturna, você, leitor, é obrigado a aceitá-la ou recusá-la por inteiro, não importa o que pense. A menos que você conheça as paisagens que eu fotografei em meu diário, será obrigado a aceitar minha versão delas. Agora, eu o deixo em companhia de mim, ou do homem que eu era..."
Ernesto Guevara

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